Atuação de bibliotecários acadêmicos com o uso da inteligência artificial

A biblioteca acadêmica adaptou-se com o tempo, incorporando tecnologias e enfrentando desafios na era da inteligência artificial, exigindo novas habilidades dos bibliotecários.

  1. Mas o que é um chatbot e como é utilizado?
  2. Como deve ser esse uso? Há direcionamentos ou limitações para usar a IA? 
    2.1. Roteiro para auxiliar os bibliotecários a atuarem com IA em contexto acadêmico 
    2.1.1. Capacitação em Ferramentas de IA
    2.1.2. Orientação personalizada
    2.1.3. Recursos especializados de IA 
    2.1.4. Senso crítico
    2.1.5. Integração e atualização constante
    2.1.6. Ética e privacidade
    2.1.7. Colaboração interdisciplinar
    2.1.8. Feedback contínuo
  3. A normatização da IA em função do célere avanço 

A biblioteca é um organismo dinâmico, um equipamento socioeducativo, que se atualizou com o passar dos séculos. Nas últimas décadas, avançou muito em seu contexto de trabalho com a introdução da tecnologia. Nessa trajetória temporal utilizou desde os tradicionais catálogos de fichas impressas, passando pelos catálogos automatizados de softwares específicos, pelas quatro fases da Internet, pelo Google, pelas bibliotecas virtuais, pelas novas tecnologias de toda sorte que surgem a cada dia, até chegar à inteligência artificial dos chatbots

Atualmente, quando as novas tecnologias e a inteligência artificial invadem e tomam conta do cenário, influenciando na aprendizagem, que atitudes o bibliotecário deve tomar para mediar as pesquisas de alunos que usam a inteligência artificial? Como o bibliotecário deve atuar nesse novo cenário de IA que veio para ficar? Vamos apresentar mais adiante um pequeno roteiro, mas, antes, precisamos esclarecer alguns pontos. 

Com o advento das bibliotecas virtuais, o equipamento biblioteca já ampliou sua aderência e capilaridade nas IES, haja vista as facilidades que as plataformas oferecem aos pesquisadores e a boa aceitação desse recurso pelo MEC nos processos avaliativos. Um excelente exemplo que temos é a Biblioteca Virtual Pearson.  

Agora, com a inteligência artificial dos chatbots as possibilidades de pesquisa ampliaram-se de forma exponencial, a partir de outro tipo de mecanismo de busca e acesso. O aluno está mais livre e independente para pesquisar de forma bem direta o assunto que desejar em qualquer aspecto e até dialogar com a IA, obtendo respostas pontuais.  Leia também: 👉 5 programas de IA que transformarão a pesquisa universitária

Mas o que é um chatbot e como é utilizado?

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“Chatbots são programas de computador com os quais se pode conversar em linguagem natural. Eles são capazes de manter um diálogo coerente, como faria um interlocutor humano.” (Cruz; Alencar; Shmitz, 2019, p. 43).

Tomando o chatbot ChatGPT pela sua popularidade, temos a definição de Lemos (2023, online) 

O ChatGPT é um chatbot alimentado por inteligência artificial (IA) que interage com seres humanos e permite obter respostas em linguagem natural a partir de comandos escritos.

Ele é similar aos assistentes virtuais como Alexa e Siri, mas se destaca por fornecer respostas textuais mais complexas. Além disso, é capaz de resolver problemas matemáticos, criar histórias, responder perguntas e muito mais. 

Portanto, é só elaborar perguntas, simular problemas, solicitar explicações ou argumentos, para que ele dê respostas em sugestões e soluções, tudo a partir de prompts (comandos para obter melhor interação com o chatbot) bem elaborados. Quanto mais especificada e contextualizada for a sua interação com o chatbot, melhores retornos você conseguirá dessa tecnologia.Leia também: 👉7 paradigmas da inteligência artificial na educação superior

Como deve ser esse uso? Há direcionamentos ou limitações para usar a IA? 

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Como a essência da atividade biblioteconômica, além de social, é pedagógica, cabe ao bibliotecário que está à frente de uma biblioteca, introduzir atitudes específicas para lidar com esse novo cenário, desenvolvendo habilidades críticas. Não vale fazer juízo de valor, ser resistente e contrário a essa tendência, afinal, é um avanço tecnológico que já faz parte do contexto acadêmico e que precisamos saber administrar seu uso, para não incorrer no campo perigoso do famoso “copia/cola”. 

Para tanto, definimos um pequeno roteiro que pode auxiliar os bibliotecários no enfrentamento dessa nova realidade, em relação ao uso responsável, ético, eficaz e produtivo da inteligência artificial via chatbot nas pesquisas acadêmicas.

Roteiro para auxiliar os bibliotecários a atuarem com IA em contexto acadêmico

Capacitação em Ferramentas de IA

  • Apresentar as plataformas de inteligência artificial disponíveis e de fácil acesso e uso.
  • Oferecer treinamentos sobre o uso de ferramentas de IA para pesquisa acadêmica, aplicando exemplos variados.
  • Fornecer recursos e tutoriais que ajudem os alunos a entender como integrar a IA em seus processos de pesquisa.

Orientação personalizada

  • Auxiliar na identificação de ferramentas de IA conforme as necessidades específicas de cada tipo de usuário e pesquisa.
  • Oferecer orientação personalizada aos alunos, um tipo de serviço de referência voltado à explicação da inteligência artificial para o aprimoramento de pesquisas.  
  • Orientar como a pesquisa pode ser feita a partir de prompts, sintaxe e construção das perguntas, para se obter resultados mais consistentes, evitando questões sensíveis, inadequadas ou ofensivas.

Recursos especializados de IA

  • Garantir que a biblioteca tenha acesso a bases de dados e recursos específicos de IA para auxiliar os alunos em suas pesquisas.
  • Colaborar com o pessoal da TI e especialistas em IA, para fornecer insights sobre as melhores práticas e tendências.

Senso crítico

  • Alertar sobre limitações e riscos, informando aos usuários sobre a falta de capacidade para discernir informações falsas e destacando os riscos associados ao compartilhamento de informações pessoais ou confidenciais com a ferramenta.
  • Incentivar a avaliação crítica das informações obtidas por meio da IA, ela pode ser apenas um direcionamento para seguir no caminho correto da pesquisa.
  • Ensinar os alunos a questionar e analisar os resultados gerados pela inteligência artificial, considerando a confiabilidade e a fonte dos dados, pois nem tudo é aceitável.
  • Fornecer acesso a recursos de aprendizagem complementares, tais como livros, periódicos, bases de dados e sites confiáveis, que possam completar e ampliar as informações obtidas através do chatbot.

Integração e atualização constante

  • Promover a integração de tecnologias de IA nos serviços da biblioteca, como chatbots para suporte online e sistemas de recomendação de recursos.
  • Manter-se atualizado sobre as últimas tendências em IA para melhor atender às necessidades dos alunos.

Ética e privacidade

  • Discutir questões éticas relacionadas ao uso de IA na pesquisa.
  • Enfatizar a importância da privacidade dos dados e garantir que os alunos estejam cientes dos aspectos éticos envolvidos no uso de tecnologias de IA.

Colaboração interdisciplinar

  • Promover a colaboração entre bibliotecários, professores e especialistas em IA para criar ambientes de aprendizado mais integrados.
  • Participar de iniciativas interdisciplinares que envolvam a IA na pesquisa acadêmica.

Feedback contínuo

  • Estabelecer um canal de feedback para os alunos expressarem suas experiências com o uso de IA na pesquisa.
  • Utilizar o feedback para aprimorar os serviços oferecidos pela biblioteca em relação à integração de tecnologias de IA.

Como vimos, além das questões relacionadas à prática do uso de IA, em nosso roteiro proposto, há questões de ética e privacidade a serem respeitadas, dentre outras mais complexas de cunho empresarial, que caminham para a necessidade de normatização.  Leia também: 👉 Liderança docente e mitos da inteligência artificial na educação

A normatização da IA em função do célere avanço  

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chatbot é uma das aplicações que utilizam a IA, hoje, são inúmeras as aplicações. Com o avanço da inteligência artificial no mundo em todos os setores, alguns problemas com o uso inadequado já começam a surgir. Nesse sentido houve a necessidade de normatizar essa aplicação. Foi lançada a ISO IEC 42001 no fim do ano de 2023, uma parceria ISO (International Organization for Standardization) e IEC (International Electrotechnical Commission). Qual o objetivo dessa norma?

ISO/IEC 42001 é uma norma internacional que especifica requisitos para estabelecer, implementar, manter e melhorar continuamente um Sistema de Gestão de Inteligência Artificial (AIMS) dentro das organizações. Foi concebido para entidades que fornecem ou utilizam produtos ou serviços baseados em IA, garantindo o desenvolvimento e utilização responsáveis ​​de sistemas de IA. (ISO, 2023, online)

A norma estabelece requisitos para sistemas de gestão da inteligência artificial nas empresas e instituições, com aplicação ética, responsável e transparente. Como toda norma, possibilita que a conformidade seja implantada, com a exploração de oportunidades e mitigação de riscos. Em outras palavras, governança da IA nas empresas desenvolvedoras ou usuárias de produtos/serviços que utilizam IA. 

Como a norma ainda é recente, está disponível apenas em inglês. Com certeza ainda terá sua versão em português a ser publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Portanto, é importante que tão logo seja incorporada à ABNT e adotada o seu uso no Brasil, que as IES e os bibliotecários se apropriem para conhecer melhor esse novo universo. 

Além dos chatbots, temos outras tecnologias de ponta que podem ser aplicadas na educação e que utilizam a inteligência artificial, as quais e tornam essenciais para alavancar o atendimento e a aprendizagem no contexto acadêmico da atualidade. Elas dão aporte na gestão escolar, tiram dúvidas curriculares de alunos e até permitem a elaboração de conteúdo de ensino, instrumentos de estudo e avaliações, dentre outras utilidades. Tudo isso melhora a gestão escolar e ajuda o professor em suas atividades pedagógicas. 

E você, bibliotecário ou aluno, que ainda não se ligou nos recursos da inteligência artificial, segue um trocadilho que eu mesma criei nesse sentido para servir de motivação: AI de quem não usar IA! AÍ eu digo que essa pessoa IA mas não foi

A inteligência artificial é o recurso que faltava, vamos ter habilidade e inteligência para utilizá-la, afinal, ela é o caminho para o futuro, futuro este que já é agora. 

Nova call to action

Referências

CRUZ, Leôncio Teixeira; ALENCAR, Antonio Juarez; SCHMITZ, Eber Assis. Assistentes virtuais inteligentes e chatbots. Rio de Janeiro: Brasport, 2019. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br.  Acesso em: 13 jan. 2024. E-book. 

LEMOS, Amanda. O que é ChatGPT? Tudo que você precisa saber para usar a IA. Exame, São Paulo, jul. 2023. Seção Inteligência Artificial. Disponível em: https://exame.com/inteligencia-artificial/o-que-e-chatgpt-como-usar-a-ia-em-portugues-no-seu-dia-a-dia/. Acesso em: 06 jan. 2024. 
 
ISO (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DE PADRONIZAÇÃO). ISO/IEC 42001:2023. Tecnologia da Informação. Inteligência artificial. sistema de gestão. (tradução). Disponível em: https://www.iso.org/standard/81230.html. Acesso em 06 jan. 24. 

Ana Luiza Chaves

Ana Luiza Chaves

Gestora de bibliotecas na Faculdade CDL; especialista em Pesquisa Científica, em Marketing Estratégico e em Gestão de Arquivos Empresariais. Exerce a função de Analista de Projetos de Arquivos, na Mrh Gestão de Arquivos, atuando como responsável técnica, e como auditora da qualidade. Focada no incentivo à leitura e ao uso de bibliotecas, na gestão de documentos, na aplicação da normalização em trabalhos acadêmicos e na gestão da qualidade. Mantém o blog de sua autoria Leitura e contexto.

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Inteligência artificial e bibliotecas

Nos últimos anos, os serviços de inteligência artificial (IA) estão ganhando mais espaço na vida das pessoas. Por ser algo recente,os indivíduos estão tentando entender como essa nova tecnologia transformará o modo de viver em sociedade, principalmente no âmbito profissional.

Os profissionais formados em Biblioteconomia e equipes de bibliotecas devem se manter atualizados constantemente sobre essas mudanças, e analisar como essa nova revolução tecnológica pode impactar e beneficiar o desenvolvimento e a oferta dos seus produtos e serviços informacionais, além de orientar e promover projetos para seus usuários sobre o uso consciente e crítico da IA.

A fim de contribuir com esse processo de atualização sobre o tema, fizemos a curadoria de vídeos que tratam sobre a inteligência artificial nas bibliotecas:

A aplicação das competências e habilidades dos bibliotecários na Inteligência Artificial

A atuação do bibliotecário em Inteligência Artificial e Machine Learning

A Biblioteconomia e a Inteligência Artificial

A inteligência artificial aplicada às bibliotecas

A responsabilidade das Bibliotecas na Era da Inteligência Artificial e da competência Algorítmica

BIBLIOTECAS PÚBLICAS E O USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: ACESSO, REALIDADE OU UTOPIA?

Chat GPT e o uso na Biblioteca Universitária

Discussões sobre o uso da inteligência artificial em bibliotecas

IA EM PRESERVAÇÃO DIGITAL E SUA APLICAÇÃO EM ARQUIVOS, MUSEUS E BIBLIOTECAS

Inteligência Artificial consciente: formação crítica para um presente em transformação

Inteligência Artificial e Machine Learning em bibliotecas – Classificador de Ciência da Informação

Inteligência artificial e tecnologia a serviço de bibliotecas e museus

Inteligência artificial na biblioteca

Inteligência Artificial nas Bibliotecas

Inteligência Artificial nas Bibliotecas – Aplicações de chatGPT

Inteligência artificial para catalogação na Biblioteca Central da PUCRS

 Inteligência a serviço da inteligência – As bibliotecas no tempo da IA: exemplos concretos

 Inteligência a serviço da inteligência – As bibliotecas no tempo da IA : panorama França e Alemanha 

O Impacto da Inteligência Artificial na Gestão do Conhecimento em Bibliotecas Universitárias 

Pesquisa de Artigos Científicos em Bases de Dados e Utilizando IA

Uso de inteligência artificial em bibliotecas

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O limiar da biblioteca: o uso da IA que chegou para mudar

Por Leonardo da Silva de Assis, pesquisador do Laboratório de Cultura, Informação e Sociedade (Lacis) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Leonardo da Silva de Assis – Foto: Arquivo pessoal

Se com o avanço dos acervos digitais a biblioteca, instituição física, foi colocada em xeque, a chegada de serviços que usam robôs com Inteligência Artificial (IA) para auxiliar na busca dos usuários e, até mesmo, fornecer respostas precisas com base em levantamentos em bancos de dados infinitos, a biblioteca como conhecemos, com acervo local, prédio, profissional responsável e usuário, chegou ao seu limiar.

Acreditamos que os profissionais que trabalham com a informação, em especial os bibliotecários, estão atentos às discussões recentes sobre o desenvolvimento de serviços eletrônicos de busca que passaram a incorporar o uso da IA. Estes, capazes de auxiliar nas pesquisas, escrever textos e entregar respostas prontas ao grande público. Surgiram os serviços ChatGPT (financiado por Elon Musk), o Bard (Serviço do Google) e o recém-implementado serviço do Bing (Microsoft).

A pergunta que surge: qual o impacto dessas tecnologias para as bibliotecas? O questionamento é amplo porque tal cenário impacta essas instituições de modos diferentes. Para exemplificar, vamos tratar de alguns pontos em dois segmentos: das bibliotecas universitárias e das bibliotecas públicas.

O primeiro: da biblioteca universitária. O recente impacto sentido está na academia e na produção de textos. Seguindo a proposta do ciclo de produção científica, uma pesquisa acontece partindo de uma inquietação, passa pelo uso de um referencial teórico construído por pares e, por fim, é elaborado um pensamento crítico que retorna ao ciclo. Nesse caso, onde está o momento que o pesquisador faz contato com um serviço de busca ou formulação de respostas que utilize uma IA? No momento da busca? Ou no momento de formulação do seu pensamento crítico que resulta em uma nova produção científica? A identificação desse cenário se coloca como um desafio a atender. Atrelado a isso, as bibliotecas universitárias passarão a incorporar em seus acervos registros de produção acadêmica gerados por máquinas. Os bibliotecários não têm a competência, nem é seu trabalho, fiscalizar os conteúdos das obras. Então, será cada vez mais necessária uma análise prévia e criteriosa das bancas avaliadoras para que tais textos possam ser divulgados e que de fato sejam contribuições originais à comunidade científica.

Outro ponto que nos chama a atenção ainda no ambiente da biblioteca universitária (que pode ser expandido para outros setores): o da indexação. A precisão na indexação para identificar os temas e assuntos relacionados às obras é uma das tarefas no qual a análise de conteúdo passa pelo trabalho de um profissional qualificado, que se utiliza de ferramentas como, por exemplo, os vocabulários controlados. É sabido que é possível identificar, por meio de softwares, os termos relevantes que caracterizam uma obra pela quantidade de vezes que eles aparecem nos textos. No entanto, essa tarefa ainda é realizada com maior qualidade quando passa pelo crivo de um ser humano. Nesse caso da indexação, a pergunta que surge: como esse trabalho pode ser realizado em conjunto com a IA? Num exercício de reflexão de uso dessa tecnologia, um sistema com IA pode identificar que um documento possui relações de conteúdo que vão muito além daquelas que foram selecionadas por um profissional e definidos por uma instituição. Além disso, uma IA pode realizar uma indexação orgânica, que ao longo da utilização do documento por diferentes pessoas identifique outras relações e, portanto, apresente novas formas de identificação do conteúdo. Com isso, possibilite de forma autônoma alterar a indexação de uma determinada obra, sem a necessidade da interferência de um profissional.

O segundo seguimento: as bibliotecas públicas. Tal setor é o mais complexo de se pensar quando da ascensão dos sistemas de IA. A principal questão está no fato de que o uso de ferramentas de IA para consulta e encontro de respostas, a chamada “necessidade de informação do usuário”, faz com que a biblioteca pública se afunde num abismo de irrelevância para a sociedade.

Tendo em vista o cenário atual, com a chegada dos computadores, o desenvolvimento da internet e, por fim, dos acervos digitalizados, é praticamente desnecessário ir até uma biblioteca pública para pesquisar sobre determinado assunto. Salvo em casos em que uma obra está esgotada e se encontra apenas em determinado acervo. Em visita recente, janeiro de 2023, à Biblioteca Estadual Parque Villa-Lobos, em São Paulo, instituição modelo no processo de desenvolvimento de serviços que estejam coesos com o público frequentador, é clara observação do mapa de localização dos usuários. O acervo em papel e outras mídias, além das sessões para pessoas com deficiência, encontra-se sem ou com poucos usuários. Enquanto isso, os espaços para uso dos computadores com acesso à internet, a sala de games (cabe destaque a essa inovação) e, até mesmo, o espaço disponibilizado pelo governo do Estado de São Paulo para coworking com uso intenso.

O que estamos vendo é um caminho sem volta no que diz respeito à necessidade de consulta de um acervo físico ou digital de uma biblioteca pública. Parafraseando o professor Luis Milanesi, que na obra O Paraíso via Embratel (1973) indica que houve no Brasil uma transição da população analfabeta para o consumo dos produtos oferecidos pela TV, sem passar pela biblioteca e a leitura, estamos prevendo agora um público que migrará de uma fase de contato dos acervos digitalizados para o uso de serviços de respostas baseados em inteligências artificiais. Com isso, a formulação do pensamento crítico do indivíduo, a sua inquietação pela descoberta, a necessidade de investigação desse universo físico (acervo do passado) ou digital que se afronta aos nossos olhos passa a ser simplificado por serviços formuladores de respostas prontas.

O que cabe às bibliotecas nesse cenário? Novamente, cada seguimento específico deverá tratar as respostas para os seus problemas. O que podemos identificar em comum é a necessidade de que profissionais busquem formas de trabalhar com seus públicos de modo a instigar a capacidade de investigação e o uso dos recursos disponibilizados em cada instituição. De fato, o cenário complexo está para a biblioteca pública. Esta, que já passa por uma crise há anos por causa da fuga de público e, agora, com a realidade premente da compra e disponibilização de acervos digitalizados, que coloca fim à necessidade de ir ao local da biblioteca para consulta. O que vemos é que a biblioteca pública necessita estar atenta às demandas que surgirão com os desenvolvimentos dos serviços com uso das inteligências artificiais. Ela deverá propor ações que sejam inovadoras e que instiguem no seu público a formulação do pensamento que passa pela construção coletiva dos indivíduos.

Por fim, agora em um olhar amplo para os diferentes segmentos de bibliotecas, vemos que esses serviços com o uso das IA, em especial os de chatbot, farão o papel do bibliotecário de referência nessas instituições: o profissional responsável por identificar os problemas de pesquisa dos seus usuários e propor estratégias de busca baseadas nas necessidades de cada um. Tal atividade se tornou fundamental após o desenvolvimento dos sistemas computadorizados. Tarefa das mais complexas, a se pensar que cada indivíduo apresenta necessidades de pesquisa distintas e que os acervos ganharam uma proporção infinita com os conteúdos digitalizados. Como sugestão aos pesquisadores da área das bibliotecas, com destaque para os serviços de referência, fica a proposta de se criar um ChatBot, ou serviço com o uso da IA, que indique as respostas de uma necessidade de pesquisa dos sujeitos e que, ao mesmo tempo, consiga traçar estratégias de uso do acervo da instituição (físico e digital). Ou seja, quais obras, autores e textos compõem aquela pesquisa. Ainda, indicar materiais que possam estar relacionados àquela necessidade de busca. Com isso, haveria uma otimização do trabalho realizado pela instituição na questão profissional e de acervo.

O que fica de alerta em todo esse momento da criação de serviços de busca e formuladores de respostas com o uso da IA, segue a proposta levantada pelo Professor Emérito Teixeira Coelho (in memoriam) (Folha de S. Paulo, 2 de dezembro de 2019), de que a IA é uma construção humana. O que podemos indicar é que se coloca à frente para as bibliotecas, bem como para os profissionais que atuam nessas instituições dos diferentes segmentos, um desafio grande da incorporação de serviços que façam uso da IA. Além disso, saber qual será o papel de cada instituição nesse novo cenário, onde a interação dos indivíduos com as instituições passa a ser cada vez mais nula.

(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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Qual o papel da inteligência artificial nas bibliotecas?

Leia neste artigo sobre a relação entre bibliotecas e inteligência artificial, e descubra como a tecnologia contribui para melhorar a gestão do acervo.

Qual o papel da inteligência artificial nas bibliotecas?

Leia neste artigo sobre a relação entre bibliotecas e inteligência artificial, e descubra como a tecnologia contribui para melhorar a gestão do acervo.

A inteligência artificial (IA) está mudando a forma como as pessoas acessam e consomem informações, e para as bibliotecas pode ser um ótimo apoio para pesquisas e otimizar os processos. Na verdade, as bibliotecas estão se reinventando, se adaptando e incorporando tecnologias, como a própria IA, para melhorar seus serviços.

Afinal, a tecnologia não será uma vilã desde que saibamos como explorar seus recursos, porque o desafio não está na máquina, mas na forma como as pessoas usam dela. É desta forma que nossos sistemas são pensados. Um sistema de gestão, por exemplo, não vai substituir o papel do gestor, mas otimizar seu trabalho para que ele possa ter mais tempo e tranquilidade para focar em outras áreas de importância.

Aproveite para conhecer mais sobre a Soluções Sophia e os softwares de gestão para bibliotecasinstituições de ensinomuseus e centros de documentação.

Inteligência artificial na biblioteca: como as bibliotecas podem fazer bom uso da IA?

Pode parecer surpreendente, mas a discussão sobre o avanço da inteligência artificial e suas capacidades de criação e transformação não é algo recente. No entanto, foi do ano passado para cá que ela foi ganhando cada vez mais espaço e força, especialmente na área educacional e, agora, nas bibliotecas.

A verdade é que a IA tem uma capacidade de leitura de dados que nós, seres humanos, dificilmente conseguimos alcançar. Então, por que não aproveitar essa inteligência para melhorar processos na biblioteca, como catalogação e organização de arquivos? Vamos destacar outras áreas da biblioteca nas quais a inteligência artificial poderia ser útil:

  1. Recomendação e busca personalizada de acervo;
  2. Análise de dados para entender a navegação e as necessidades dos usuários da biblioteca;
  3. Automação de tarefas que demandam muito tempo;

Continue lendo o texto do blog para saber como a IA pode ajudar nestas frentes da biblioteca.

As bibliotecas vão acabar com o avanço da tecnologia?

É importante ressaltar que as bibliotecas continuam desempenhando um papel fundamental na sociedade como espaço comunitário, informativo e cultural. Elas podem oferecer programas educacionais, eventos culturais e, inclusive, fornecer tecnologia para quem não tem acesso em casa.

Diferente do que muitos pensam ou uma vez disseram: não, a tecnologia não vai acabar com as bibliotecas. Acreditamos que elas continuam sendo espaços ricos e valiosos para a disseminação da informação e da aprendizagem.

Leia mais:

Por isso, assim como a Soluções Sophia está implementando recursos de IA em seus produtos, como no aplicativo Sophia+ by Layers, as bibliotecas também têm oportunidades de implementar a inteligência artificial em suas atividades, especialmente para ajudar na leitura de dados.

5 maneiras para as bibliotecas aproveitarem a Inteligência Artificial

Catalogação: A inteligência artificial pode ser alimentada por uma base imensa de dados. Então, os algoritmos da IA podem analisar e classificar automaticamente itens com base em seu conteúdo, tema e relevância, facilitando não só a catalogação do acervo como a recuperação de informação pelos usuários.

Leia mais: 

Busca personalizada: Se a IA pode ajudar na catalogação e organização das informações do acervo, mais fácil pode ficar a busca e recomendação de livros, artigos, filmes e outros materiais com base no histórico de navegação e empréstimo dos usuários.

Atendimento ao usuário: Já é muito comum diversas empresas usarem inteligência artificial para facilitar o atendimento ao cliente. Um exemplo são os Chatbots, que também são alimentados por dados para fornecer informações e suporte ao usuário sempre que ele entrar em contato. O Chatbot pode responder perguntas comuns e previamente prontas, mas também poderia ajudar na navegação do acervo da biblioteca.

Leia mais:

Análise de dados: Como já falamos, a máquina pode ter capacidades que nós, humanos, não temos. Uma delas e a leitura e análise de muitos dados. A inteligência artificial, neste caso, pode ser usada para analisar padrões de empréstimos na biblioteca, preferências dos usuários e tendências.

Automatização de tarefas: Você sabia que o corretor ortográfico do celular, por exemplo, pode sugerir palavras e emojis de acordo com a forma como escreve e textos que mais utiliza? Esse é apenas um exemplo, mas a inteligência artificial pode “aprender” a automatizar tarefas repetitivas e que têm um padrão a ser seguido, como renovação de empréstimo, comunicados, lembretes de devolução, entre outros processos.

Aproveite o assunto e assista à live com a Professora e Doutora Liliana Giusti Serra, bibliotecária e profissional da informação:

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