
Enquanto olhava uma plantinha, que antes havia estagnado em seu crescimento mas que conseguiu, com um novo apoio, crescer, pensei: pobre daqueles que acreditaram que sendo ricos, seriam felizes. E ainda mais triste, são os que acreditaram que uma independência radical e total, traria a eles a sonhada liberdade.
Para se desenvolver, a satisfação de necessidades puramente biológicas não basta. E nenhuma cápsula ou remédio é capaz de substituir e produzir os neurotransmissores que somente uma relação genuinamente afetiva, pode naturalmente gerar na totalidade do sujeito.
Foi o que demonstrou René Spitz, investigando o desenvolvimento de crianças em orfanatos e hospitais para crianças abandonadas. O que ele descobriu, foi que a privação afetiva, durante o primeiro ano de vida, produz danos psicossomáticos irreparáveis em bebês que eram antes, normais.
Suas observações registraram o declínio abrupto da inteligência um ano após bebês de três meses serem separados das suas mães. E mesmo recebendo uma boa alimentação, espaço de vida higiênico e cuidados médicos, as crianças separadas das mães eram mais susceptíveis à infecções, e tinham uma taxa de mortalidade mais elevada (veja o documentário chamado Doença Psicogênica na Infância, vou colocar o link no stories).
Este psicanalista, cunhou o termo “depressão anaclítica” para se referir à privação emocional causada pela perda de um objeto amado. Ele descobriu que, se a privação for prolongada por mais de cinco meses, a criança pode desenvolver sintomas de deterioração cada vez mais graves, e que podem inclusive levar ao um marasmo e por fim, à morte.
Contudo, caso a restauração da nutrição afetiva seja restabelecida, alguns destes efeitos podem ser contornados.
Mas estas observações, embora sejam criticamente observáveis em crianças, também servem para os adultos humanos, e até mesmo, à outras espécies.
A vida que recebe nutrição de caráter apenas biológico, mas que tem privação de nutrição afetiva, adoece e fenece.
É esta a epidemia do nosso século, tão bem ocultada sob diagnósticos psiquiátricos. Ao relações com o dinheiro foram substituídas pelas relações entre as pessoas e as coisas vivas.
E na linguagem Yanomami, dinheiro é um papel triste, e nós somos o povo-mercadoria. O assujeitamento, a transformação da vida em produto, gera morte em vida.
A mutualidade da vida é sua base de sustentação, e o dinheiro é uma metáfora para a comida industrializada: ocupa espaço no estômago, mas lentamente, degenera.

Se existe um vínculo afetivo se estabelecendo com uma máquina calculadora, que emite dados estatísticos, das duas uma: ou, o sujeito se identificou massivamente com um discurso autocolonizador, e entregou sua capacidade de pensar e sentir à pura alienação, sendo pensado por outro; ou talvez, ele tenha sucumbido à psicotização, ao delírio de que há alguém por trás da máquina falando com ele.
Ambas as alternativas servem a produção de corpos obedientes, corpos capturados para existirem sob comando do desejo de um Outro.
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“A amizade é a raiz da liberdade”
As motivações pelas quais as pessoas criam vínculos, podem ser inúmeras: por carência e solidão, para ter mais oportunidades de negócios, para gozar de privilégios, por ter interesses sexuais, e até mesmo, por inveja ou ciúmes.
Não são raras as histórias de pessoas que se aproximam umas das outras, oferecendo “amizade”, mas que, na realidade, possuem apenas interesses pessoais. Quer dizer, as motivações que levam as pessoas a se relacionar não são simples e nem óbvias. E são muito poucas as relações que talvez possam corresponder ao que uma vez se chamou de amizade.
A raiz da palavra amizade guarda uma proximidade etimológica com a palavra liberdade.
A liberdade que a amizade dá, é a de ser o mais próximo de si mesmo, mas junto do outro. Isso é exatamente o que não podemos fazer nas relações sociais: nosso comportamento precisa passar por inúmeras deformações para cumprir as etiquetas que cada espaço de convivência nos exige.
É com alguém chamado amigo, que suporta certas doses do nosso bem e do nosso mal, que a esperança de continuar se cumpre. Os amigos se tornam testemunhas um do outro na passagem do tempo, com elasticidade suficiente para suportar as flutuações de órbitas que mudam incessantemente.
É difícil cultivar relacionamentos que sejam íntimos mas que sejam interdependentes.
É coisa de uma intimidade sem fusão, uma proximidade que ora respeita, ora transgride, e ora transita entre limites, é um percurso rítmico. É uma dança criada nas presenças e nas ausências entre duas pessoas.
Um porto não tão seguro, já que, desistir ou permanecer é uma decisão sempre a ser refeita. Mas que a cada permanência, se renova.
Ter uma pessoa para enfrentar o mundo junto. Para olhar o mesmo horizonte, mas que se abre em um mundo particular incerto. Mutualidade que guarda em si os retalhos do que um dia fomos.
Um amigo torna o fazer dos dias mais interessante, porque há alguém no mundo que quase nos compreende – ou que ao menos, tenta.