(por Márcio Bello Teixeira)
— Você pode me ajudar com meu computador? — perguntou-me desesperadamente uma amiga.
— De novo?! — Aquela não era a primeira e nem seria a última vez. — O que foi que aconteceu desta vez?
— Eu não sei, mas eu acho que meu Pepê — foi assim que ela se referiu a seu computador portátil — está morrendo! — disse ela.
Eu já andava com um pé atrás com aquele computador que minha amiga, cujo nome eu prefiro manter em sigilo absoluto, vivia enchendo a cabeça — isto é, o HD — com ideias incompatíveis — isto é, programas —, mas, depois de eu saber que o tal computador moribundo se chamava Pepê, eu não pude deixar de pensar que o tal tinha um nome muito parecido com um dos famosos do grupo “Novos Baianos” e que, coincidentemente, minha amiga tinha — quer dizer, tem — um apelido que, também coincidentemente, era, e obviamente ainda é, o nome de uma das filhas do famoso — que não tem nada a ver com o Gomes de Sá, mas com o de Salvador — que eu, até hoje, insisto em associar. Bem, o que realmente importa é que eu perguntei:
— Você tem certeza?
Na verdade, eu não fiz esta pergunta, fiz outra bem parecida, mas preferi alterar para a pergunta que esta amiga aqui da história gosta de fazer. Bem, aí, ela respondeu:
— Marcinho — muita gente boa me chama assim —, Pepê não anda bem! Ele está precisando de…
— …uma nova dona! — disse.
— Poxa! Não fale assim! Pepê é como um filho! Ele precisa de ajuda!
— Quem está precisando de ajuda? Eu não entendi direito o que você falou.
— Vixe! Você não está prestando atenção! Pepê não está bem!
Ah! Eu esqueci de dizer que esta conversa toda foi ao telefone.
— Tudo bem! Me diga o que está acontecendo com Pepeu!
— Pepê! O nome dele é Pepê! — disse minha amiga.
— Foi mal! Eu estava olhando uma revista antiga e vi umas fotos do Carnaval daqui de Salvador e vi a foto de Baby Con…, quer dizer, Baby do Bra… …foi mal!
— Você não está dando importância…
— Nã…! Na…! Não! Na verdade, eu me distraí! Me perdoe! Que posso fazer por você?
— Você quer saber o que Pepê tem?
— Claro! Pode dizer!
— Pepê está muito lento e descarrega a energia muito rapidamente.
— Quantos anos tem Pepê?
— Por que você está perguntando isto?
— Você começou me dizendo que você achava que Pepê estava morrendo. Agora, você está me dizendo que Pepê está lento e com pouca energia. Você não acha que é importante saber a idade de Pepê? Você já pensou em substituí-lo?
— Por favor, não fale assim! A gente não substitui as pessoas! A gente não joga fora as pessoas quando ficam velhas! — quase chorando, disse minha amiga.
— Mas Pepê é um computador, não é?
— É mais que um computador! Pepê tem personalidade!
— Aí, lascou-se! Como é isso? Personalidade?!
— Eu sei disso! Eu tenho certeza! Pra dizer a verdade, ultimamente, eu sinto que ele tem reclamado muito!
— Tem reclamado?! Você tá de brincadeira comigo! Agora, só falta você me dizer que Pepê tem conversado com você!
— Ó! Veja bem! Ele não fala nada, mas ele reclama!
— Que conversa de rato é essa? Agora, estou completamente perdido no espaço de Rodulf Von Laban e na liquidez de Zygmunt Bauman!
— Vixe! Você foi longe, hein! Mas não fique assim, eu explico!
— Então, explique!
— Pepê está sempre fazendo uma zoada estranha! Zum! Zum! Zum! Clic! Zum! Zum! Zum! Clic!
— Estranho! Eu não tenho a menor ideia do que está acontecendo. Eu não sei como ajudar.
— Você não tem um conhecido que sabe mexer com computador? Eu pensei em pedir a você pra falar com ele pra dar uma olhada em Pepê.
— Assim que eu acabar de conversar com você, eu ligo pra ele.
— Tem mais uma coisa! Além da zoada, Pepê vibra muito.
— Pelo jeito, a coisa tá pegando, né? Mas, por favor, me diga uma coisa: você andou futucando o velhinho?
— Que velhinho? Não tô entendendo! — com um sotaque bem paulistano, disse ela.
— Você andou instalando alguma coisa em Pepê?
— Pouca coisa, eu acho! Isto é importante?
— Claro! Instalar um programa é, sem dúvida, muito importante, mas saber instalar é ainda mais importante. O grande problema é o “BIOS”.
— Ah! Isso aí, eu sei: Basic Input/Output System. Viu como estou bem no inglês?
— Não estou falando disso!
— Não?! Tem outro significado?
— Bicho ignorante operando sistema!
— Magoou! Vou desligar o telefone! — disse ela.
— Calma! Eu estava brincando. Um pouquinho de ludicidade não faz mal a ninguém!
— Ludicidade ou crueldade?
— Nã… Na…
— Tá gaguejando? — perguntou ela.
— Nã.. Não! Na… Na verdade, eu vou desligar pra ligar prum cara que vai resolver o problema. Depois, eu ligo pra você de novo.
— Tudo bem! Brigada, Soninho! — Ela, quase sempre que conversa comigo, mistura meu nome com o de minha esposa, Soninha.
— Nã… Na… Não acredito! Na moral, você não tem jeito. Cê tá falando com Marcinho, eu! Cê quer falar com Soninha? Ligue pro celular dela! Beijo! Fui! — Desliguei o telefone.
Depois de ligar para um amigo que entende bastante sobre o assunto e de agendar com ele um horário pra ele dar uma olhada no computador de minha amiga, liguei pra ela e disse:
— Tá mais calma?
— Não sei! Vai depender do que você vai me dizer! Você falou com seu conhecido?
— Falei, sim, e ele deve estar chegando em alguns minutos.
— Ah, meu Deus! Então, eu preciso preparar Pepê!
— Preparar Pepê?! Que porra é essa? Vai dar banho nele ou vai colocar um paletó nele?
— Ave Maria, Marcinho! Eu vou passar um paninho nele pro seu conhecido não chegar aqui e encontrar Pepê sujinho!
— Vou descer e me encontro com você na porta de seu apartamento! — Morávamos no mesmo prédio. Eu, no primeiro andar, e ela, no térreo. — Soninha vai comigo.
— Meu Deus! Fiquei preocupada! Você acha que o problema de Pepê é muito grave?
— Por que você está perguntando isso?
— Pra você e Soninha descerem juntos, só posso achar que vocês estão muito preocupados com meu Pepê.
— Relaxe! A gente só tá um pouco curioso… Opa! Tocaram aqui no interfone! Vou atender! Deve ser ele!
— Ele quem?
— Meu conhecido que vai dar uma olhada no seu Pepê. Acho que Soninha já atendeu. Já estamos descendo!
— Eu ainda não passei o paninho em Pepê!
— Deixe o paninho pra lá! A gente se encontra em sua porta! A gente já está indo! — Desliguei o telefone e abri a porta de meu apartamento. — E aí, cara! Beleza? — falei com meu conhecido, descendo a escada.
— Tudo bem, meu velho? — disse ele. — Eu vim o mais rápido possível. Cadê sua amiga com o computador?
— Oi! Ó eu aqui! — disse nossa amiga, saindo de seu apartamento com Pepê parcialmente enrolado numa toalha de rosto.
— Este é o cara que vai resolver seu problema!
— E aí, tudo bem? Posso dar uma olhadinha no seu computador? — disse meu conhecido.
— Ele não está bem! — disse nossa amiga, dando-lhe Pepê ainda parcialmente enrolado numa toalha de rosto.
— Meu velho, você chegou a dar uma olhada nesse computador? — perguntou-me ele.
— Que nada! Não deu nem tempo! Quando eu liguei para você, eu tinha acabado de conversar com ela. Eu soube hoje que o computador estava com problema. Você acha que é alguma coisa séria?
— Não sei! Vamos ver agora! Você me disse que o computador tava fazendo uma zoada e vibrando, não foi? — disse, desenrolando e ligando Pepê.
Assim que Pepê foi ligado, todos nós ouvimos uns ruídos, Zum! Zum! Zum! Clic! Zum! Zum! Zum! Clic!
— Esta é a zoada que você ouviu? — perguntou meu conhecido a nossa amiga.
— É! É esta aí! Toda vez que eu ligo Pepê, ele faz esta zoada e ainda vibra!
— Pepê?!
— Fique na sua, cara! Pepê é o nome do computador. — Toquei no ombro de meu conhecido, tentando não rir.
— Pronto! Resolvido! — Ele abriu o compartimento de CD, tirou o CD que estava dentro e entregou a nossa amiga. — Seu computador está bem. Quando a gente liga um computador — de mesa ou portátil — que tem um CD em seu compartimento de leitura, a gente sempre ouve um ruído e um pouco de vibração — contendo o riso, disse meu conhecido.
Ficamos todos em silêncio, num estado quase meditativo. Até hoje, não sei se foi um acontecimento real, um pesadelo, ou um delírio coletivo.
P S.: Pepê está aposentado.
