No dia 5 de dezembro, Lucas Lima e Gustavo Bispo, militantes negros do movimento Juntos! e do movimento Correnteza, respectivamente, ambos do Diretório Central dos Estudantes (DCE), foram notificados por e-mail de que a reitoria da Universidade Estadual de Campinas abriu sindicância contra eles. Isso ocorreu em virtude de sua participação, em 3 de abril, nas mobilizações que denunciavam a colaboração da Unicamp com universidades israelenses responsáveis por produzir conhecimento e tecnologia em favor do apartheid e genocídio do povo palestino. Eles foram convocados para uma reunião de "esclarecimento" em 11 de dezembro.
Antes do evento, manifestações contrárias à sua realização ocorreram em diversos âmbitos, como declarações de repúdio no Conselho Universitário (CONSU), um abaixo-assinado organizado pelo coletivo de pessoas asiáticas amarelas e marrons (ANURA) que ultrapassou as 1500 assinaturas, um posicionamento contrário do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU) referendado em assembleia, e um documento encaminhado à reitoria por parte da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), alertando para as atividades desenvolvidas cotidianamente por tais universidades israelenses. Segundo a carta da FEPAL, a Universidade de Tel Aviv, uma das convidadas para a feira, tem relação direta com o Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), órgão responsável por elaborar estudos que subsidiam a produção de armamento, munições e sistemas aplicados na ocupação israelense da Palestina.
Mesmo após diversos protestos, a Unicamp não cancelou a feira, ignorando as opiniões da comunidade acadêmica e dos movimentos sociais palestinos auto-organizados. Infelizmente, essa postura não é nova. Além de não investir em espaços amplos democráticos de debate com a comunidade sobre as parcerias que a universidade busca estabelecer, as reitorias da Unicamp também possuem um longo histórico de perseguição a estudantes, sobretudo negres, como as inúmeras sindicâncias abertas contra participantes da greve histórica de 2016 que conquistou, tardiamente, depois de muita mobilização dos movimentos negros estudantis, as políticas de ação afirmativa e o vestibular indígena. Não aceitaremos mais esse ataque ao movimento estudantil e aes estudantes que lutam!
Apesar da adesão massiva do corpo estudantil às mobilizações contra a feira israelense, a reitoria optou por intimar dois estudantes negros do DCE que se mobilizaram também durante a greve estudantil de outubro. Entre suas reivindicações estavam demandas de mais estrutura, investimento em políticas de permanência estudantil e inclusão de setores da sociedade que foram historicamente excluídos desse espaço.
A perseguição de lideranças do movimento estudantil, especialmente de lideranças negras, somada à postura antidemocrática da reitoria em manter a feira mesmo sob inúmeras contestações de diferentes setores da universidade, demonstra que a atual reitoria da UNICAMP está pouco preparada para lidar com o novo perfil racial e social que passou a ingressar na universidade pública, mais recentemente, além de minar a construção de um espaço verdadeiramente democrático.
Num momento em que o mundo assiste horrorizado ao genocídio cometido por Israel, a abertura do processo administrativo é mais uma tentativa de intimidação daqueles que denunciam o massacre histórico e a opressão contra o povo palestino. Por isso, seguiremos denunciando a parceria da Unicamp com universidades que promovem a limpeza étnica e exigimos sua imediata ruptura com o Estado de Israel.
Chamamos todes a assinarem este manifesto em apoio aos estudantes perseguidos e a favor do direito de manifestação!
Abaixo o apartheid colonial de Israel! Pelo rompimento imediato das relações da Unicamp com universidades israelenses! Toda solidariedade ao povo palestino!